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Domingo, 24/09/2017
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Gestantes

Esta seção vai ajudar as gestantes a entenderem melhor o milagre da gravidez

Plantão Médico – Mão de Deus

No auditório da Maternidade Bom Parto, o Dr. Roberto estava terminando sua aula da tarde. Atendendo ao pedido de uma aluna, ele iria dar um exemplo do efeito extremamente negativo do uso de drogas sobre a gestante e o feto.

- “Como vocês sabem, o cordão umbilical é a verdadeira fonte da vida para o feto.”- disse ele. –“É através da veia umbilical que o bebê recebe alimento, glicose e oxigênio, vindos da placenta. E por duas artérias são eliminadas as impurezas, como o gás carbônico. A placenta, usando o cordão, faz o papel de pulmão, fígado e rins para o bebê.

É por isso que o umbigo recebe cuidados especiais ao nascimento. E as pessoas normalmente reconhecem essa importância e se preocupam em cuidar bem dele.

Assim que o bebê nasce, através das mãos do obstetra e do pediatra, o cordão é cortado, artérias e veia são amarradas para evitar hemorragias. Se isto não for feito, uma intensa e maciça hemorragia pode matar em poucos minutos um bebê totalmente saudável. Coisa que já aconteceu, dentro de um hospital… Além disso, um bom curativo deve ser feito para evitar infecções.

Mas quando médicos ou outras pessoas não estão disponíveis, às vezes o único meio de cuidar do umbigo pode ser a mão de Deus…

Alessandra, dezessete anos, era viciada em crack. Assim como para tantas adolescentes, explicações não faltavam para seu problema. Uma combinação de pobreza, violência, falta de uma família, de trabalho, de estudo, de cultura, de moradia… são tantas as carências! Tudo levando a um conhecido e comum resultado: uso de drogas, prostituição, gravidez indesejada.

Alessandra engravidou “na nóia”, doidona, entregando o corpo em troca de umas poucas pedras de crack. Só descobriu que estava grávida no terceiro mês, quando finalmente passou um período careta e percebeu que não estava menstruando.

Não fez pré-natal. Enquanto a barriga não apareceu, continuou trocando sexo por crack. Prostituía-se no bairro mesmo, periferia brava, qualquer canto escuro servia.

Uma noite, já com quase nove meses, Alessandra estava na praia, fumando uma pedra, quando a bolsa das águas estourou. Anestesiada e alienada pela droga, ficou por ali mesmo, enquanto as dores aumentavam e o trabalho de parto prosseguia.

Já quase de manhã, sentiu que a hora chegara. Levantou-se e caminhou até a beira do mar. Em pé mesmo, tendo como foco apenas a luz da lua, que brilhava linda no céu sem nuvens, abriu as pernas e pariu.

O bebê ficou pendurado pelo cordão, que o manteve suspenso por alguns segundos. Em seguida ele se rompeu bem na base do umbigo, junto à pele. O bebê caiu de cabeça, direto no chão, ou melhor, na areia úmida. O sangue começou a jorrar pelas artérias abertas, empapando um punhado de areia molhada que havia se grudado ao abdômen do bebê. O torrão de areia pressionou e obliterou os vasos do cordão, interrompendo o sangramento. Dessa forma, a mão invisível de Deus estancou a hemorragia que seria certamente fatal.

Alessandra caiu desmaiada. Algumas pessoas que observavam de longe, perceberam o que se passava e correram para socorrê-la. Chamaram o serviço de resgate, que levou mãe e filho para a maternidade.
* * * * *
O bebê deu entrada na unidade de terapia intensiva neonatal com diagnóstico de traumatismo crânio-encefálico, risco para anóxia (falta de oxigenação cerebral), risco para infecção (devido ao parto sem cuidados de higiene) e anemia aguda, pela perda sanguínea. Mas surpreendentemente estava vivo. Salvo milagrosamente pela areia grudada a seu umbigo.

Após tomar um bom banho e receber pontos cirúrgicos no umbigo, foi colocado na incubadora, onde recebeu oxigênio e antibióticos. Apresentou os sintomas da síndrome de abstinência, por falta de crack. Teve tremores, irritabilidade intensa e comportamento anômalo. Outra única complicação foi o aparecimento de crises convulsivas, devido ao trauma de crânio. Foi necessário o uso de medicação anticonvulsivante. Lentamente, o bebê foi se recuperando.

Alessandra teve alta após dois dias e desapareceu. O endereço que colocou na ficha de internação era falso. Todas as tentativas de localizá-la falharam. O bebê teve alta do hospital após dez dias de internação. O Conselho Tutelar, atendendo à determinação do juiz da Vara da Infância, levou-o para uma instituição, onde ficou aguardando possíveis interessados em adotá-lo.

Esta adoção pode ter acontecido ou não. O fato de ser um menino, e moreninho, pode ter atrapalhado. Os casais brasileiros, de modo geral, preferencialmente adotam meninas, recém-nascidas, loiras e de olhos azuis. Qualquer criança fora deste padrão, tem mais dificuldades para conseguir uma família. Depois dos primeiros dois anos de vida, torna-se quase impossível sair de uma instituição.

Também aqui podemos imaginar um final feliz. Pode ser que o uso de crack pela mãe, não tenha afetado as funções cerebrais do bebê, nem comprometido sua saúde futura. Pode ser que o traumatismo, a hemorragia, as convulsões que sofreu logo ao nascer não tenham agravado as lesões anteriores. Pode ser que ele tenha conseguido uma boa família, que lhe deu tudo que ele precisava, mas não havia tido até então.

Pode ser que a mão de Deus o tenha salvo…

Pode ser.”

Ruy do Amaral Pupo Filho
Pediatra, Sanitarista e Escritor

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