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Sabado, 23/09/2017
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Gestantes

Esta seção vai ajudar as gestantes a entenderem melhor o milagre da gravidez

Plantão Médico – A epidemia de prematuros

No início da tarde, a programação para os residentes e estagiários era uma aula de pediatria. O auditório da Maternidade Bom Parto era confortável e escuro. O horário, logo após o almoço, convidava para uma soneca… E alguns não resistiram. Não que o tema ou o professor fossem ruins. Quem iria dar a aula era o doutor Roberto, o pediatra que havia trabalhado no interior. O tema era o aumento da incidência de gestações prematuras.

Ou, como disse o doutor Roberto já iniciando a aula, -“A epidemia de prematuridade.”

-“O personagem principal desta aula é o prematuro. Mas afinal, quem é o bebê prematuro? Por que hoje em dia nascem tantos bebês assim?
Bom, a gestação humana normal dura 280 dias, ou 40 semanas. Os bebês que nascem com menos de 38 semanas de gravidez são os prematuros.

Quanto mais prematuro for um bebê, maiores as chances de surgirem complicações, devido à imaturidade de seus órgãos. Os principais problemas são a dificuldade para respirar, a falta de defesa contra as infecções e a dificuldade para manter a temperatura. Mas existem muitos outros.

O enredo é trágico e bem conhecido. Freqüentemente estes bebês necessitam de cuidados especiais, que resultam em longas, caras e sofridas internações em UTIs-neonatais. A mortalidade é grande, principalmente naqueles muito prematuros (abaixo de trinta semanas de gestação). Acontecem também muitas complicações permanentes, principalmente as neurológicas, que podem afetar o desenvolvimento futuro dos bebês.

Entretanto, a maioria das pessoas desconhece esta realidade. Elas imaginam o prematuro como um bebê pequenininho, mas saudável, que deve ficar uns dias no hospital, apenas para ganhar peso.

Parte da culpa por esta desinformação se deve à parte da imprensa, especialmente da televisão, que geralmente mostra a prematuridade como uma coisa banal.  Alguns programas tratam da prematuridade como algo “bonitinho”, minimizando as suas conseqüências. Como se fosse uma história da Carochinha, sempre com final feliz.

Aqueles que trabalham em maternidades, especialmente nas públicas, já notaram que o número de partos prematuros vem aumentando de forma preocupante. Junto, aparece outro fenômeno, que as estatísticas oficiais já detectaram: o aumento das gestações em adolescentes. Elas dividem com os prematuros a duvidosa honra do papel principal nesta historinha. As meninas estão engravidando mais vezes, e mais cedo. E estão tendo muitos partos prematuros.

A primeira gravidez ocorre por volta dos treze anos, e elas seguem tendo filhos a cada um ou dois anos. Já não é raro encontrarmos meninas que aos vinte e dois anos, já estão na quinta gestação. O recorde pertence a uma menina de dezessete anos que teve nove gestações. Destas, teve dois filhos e abortou sete.

O grande problema é que boa parte destas jovens não faz pré-natal, embora este serviço esteja facilmente disponível, e de graça, em qualquer esquina. E, sem um pré-natal, problemas simples, comuns na gravidez, ficam sem tratamento e acabam sendo responsáveis por um parto prematuro. Como as infecções urinárias, por exemplo.

Para piorar a situação, muitas vezes coexiste o uso de drogas ou a infecção pelo vírus HIV. Além disso, como uma boa parte das gestações é indesejada, muitas meninas acabam provocando o aborto. Às vezes não conseguem êxito e a gravidez prossegue. Mas os bebês podem nascer com malformações, como a síndrome de Moebius, onde ocorre uma paralisia total e permanente nos músculos da face, o que a impede a pessoa de sorrir ou mostrar qualquer emoção.

Com certeza esta história não tem, por enquanto, um final feliz. Para isso será necessário um grande investimento, que melhore as condições de vida de uma ampla parcela da população. Em várias áreas como educação, saúde, trabalho, lazer, entre outras. Não é tarefa simples, mas precisa ser feita.”

“Alguma pergunta?” indagou ele, encerrando sua exposição.

Uma estagiária levantou a mão. –“Doutor Roberto”- disse ela –“O senhor citou o uso de drogas. Eu queria saber se isso é muito comum, e de que forma elas podem afetar o bebê.”

-“Uma boa questão, minha jovem” – retorquiu o professor. –“Não há dúvida de que o uso de drogas é infelizmente cada vez mais comum, por homens e mulheres. E o fato de engravidar não as faz parar ou mesmo diminuir o vício.

E os bebês podem ser seriamente afetados, dependendo do tipo de droga usado, da quantidade, e do período da gestação. As primeiras dez semanas são especialmente críticas. Neste período, chamado de organogênese, todos os órgãos e sistemas do bebê são formados. Coração, pulmões, cérebro, tudo enfim. No tempo restante da gestação, o bebê apenas cresce e amadurece.

Assim, qualquer agressão sofrida pelo feto, especialmente nessas primeiras semanas, pode levar ao aparecimento de mal-formações graves. Ou até à morte do feto.

Entre essas agressões estão as radiações, as infecções, como a rubéola, e o uso de drogas. Elas podem ser lícitas, como os medicamentos ou mesmo o álcool e o cigarro, ou ilícitas, como a maconha, a cocaína e o crack.  Essas substâncias chegam ao feto após serem ingeridas, injetadas ou inaladas pela mãe. Elas passam pela placenta e atingem o feto. É por esta razão que o Dr. Delano refere-se sempre à placenta como “a alfândega mexicana”. Por ela,  tudo passa…

Os efeitos adversos dependem da droga utilizada. A cocaína, por exemplo, é uma droga usada para estimular o sistema nervoso central. No feto pode causar abortamento, mal-formações genitais, urinárias e do sistema nervoso central. E também infarto cerebral e infecções intestinais graves. O recém-nascido pode apresentar sinais de retardo de desnutrição importante. E como se não bastasse, podem apresentar ainda comportamento anômalo, tremores, irritabilidade e convulsões. Além de futuras dificuldades cognitivas e sociais…

Com a maconha, não é diferente. Seu uso é cada vez mais freqüente, provavelmente devido a ser considerada uma droga “leve”. Mas seus efeitos negativos no feto podem ser muito importantes. Os canabinóides, substâncias ativas da maconha, atravessam a placenta e chegam ao feto. Ficam estocados no tecido gorduroso do feto, por até um mês após o uso pela mãe. A maconha está associada a baixo peso ao nascer e partos prematuros, bem como a déficit de aprendizado na escola. Experimentalmente é considerada teratogênica, ou seja, em estudos de laboratório mostrou-se capaz de causar mal-formações.”

-“Professor, e o álcool, cuja venda e uso são liberados, e pior, socialmente aceitos?”- indagou um aluno.

-“O uso de álcool pela gestante pode causar sérios problemas, como retardo do crescimento intra-uterino e após o parto, anomalias do sistema nervoso central, comprometimento intelectual, microcefalia, microftalmia (cabeça e olhos muito pequenos). Há até uma síndrome específica causada pelo uso do álcool, chamada síndrome alcoólico-fetal.

E há mais. O uso de drogas pode levar a gestante a comportamentos anti-sociais, que causam uma situação de abandono dos cuidados que deveria ter, consigo mesma e com seu filho. Muitas nem pré-natal fazem…”

A estagiária que havia feito a pergunta sobre drogas, novamente levantou a mão. –“Professor, o senhor é um médico experiente e já vivenciou muitos casos de gestantes usuárias de drogas. O senhor não poderia nos contar algum caso prático?”

-“Infelizmente já vi muitos casos. E continuo vendo, diariamente. Mas um deles em particular, que me ocorre agora, mostra bem o que acabei de falar. E ainda ilustra como a gestante que não cuida de si e de seu bebê, acaba necessitando de outro tipo de ajuda…”

Ruy do Amaral Pupo Filho
Pediatra, Sanitarista e Escritor

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