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Segunda-feira, 25/09/2017
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Gestantes

Esta seção vai ajudar as gestantes a entenderem melhor o milagre da gravidez

Plantão Médico – Casa de ferreiro

Na hora do almoço, o refeitório, que se situava no terceiro andar, estava cheio. Médicos, residentes, profissionais de saúde de várias áreas. Mas chamava a atenção a quantidade de casais de médicos, na verdade um fato muito comum. O grande número de horas que os alunos passam juntos durante a faculdade de medicina e depois nos plantões, propicia uma intimidade que muitas vezes termina em casamento.

Um dos residentes observou o fato enquanto comia o bandejão e comentou com seu colega. –“Você já reparou quantos casais de médicos existem aqui? Especialmente de obstetras e pediatras…” E parando para pensar um pouco, continuou: -“Será que casamento entre médicos ajuda a ter filhos, ou a criá-los de maneira mais fácil?”

-“Olha, não sei”- respondeu o outro residente. Conheço um caso que poderá fazer você pensar mais a respeito…  Você conhece o doutor Carlos e a doutora Ana? Pediatra e obstetra antigos? Uma vez eu ouvi a história deles, foi o próprio doutor Carlos quem contou, num plantão que fizemos juntos num final de semana…”
* * * * *
Eles começaram a namorar ainda no início do curso médico e casaram-se no quinto ano. Deixaram para ter filhos após a residência médica, a especialização que é feita depois dos seis anos de faculdade.

Ana optou por ginecologia e obstetrícia e Carlos por pediatria. Já trabalhavam como especialistas a cinco anos quando resolveram ter o primeiro filho. Ambos sonhavam com um parto normal e como todos os pais, com bebês saudáveis, sem complicações. Será que suas profissões ajudariam a enfrentar uma gravidez mais facilmente, ou pelo contrário, atrapalhariam?
* * * * *

Resultado do teste de gravidez: Positivo ! Que emoção, quanta alegria! Aí vinha o primeiro filho do casal.
A gravidez decorreu com muitas cólicas, que desde o início causaram muita preocupação.  A Dra. Ana trabalhava muito, e apesar de todos os cuidados, seis semanas antes da data prevista, a bolsa das águas se rompeu durante um plantão. Após muitas horas de trabalho de parto sem evolução, foi indicada uma cesariana.

Numa bela manhã de domingo nasceu uma pequena menina! Ao vê-la, ainda nas mãos da pediatra, cheia da cera que envolve os bebes e do sangue da operação, o Dr. Carlos reconheceu em seu rostinho os seus próprios traços fisionômicos! Era o milagre da vida acontecendo diante dos seus olhos, a natureza cumprindo sua missão,reproduzindo e multiplicando o DNA.

A menininha havia nascido prematura, com apenas dois quilos de peso. Teve dificuldade para respirar, mas após um dia de cuidados intensivos já estava melhor. Dr. Carlos havia combinado com a esposa que no hospital seria apenas o pai, não queria cuidar de sua filha como pediatra. Deixou esta incumbência para a equipe de neonatologistas.

No segundo dia ela foi liberada para ir mamar no quarto. Atualmente os bebês ficam com a mãe, o tempo todo, mamando quanto têm vontade, sem horário fixo. Mas, na época, os recém-nascidos ficavam no berçário, indo para junto da mãe somente para mamar, em horários determinados. Após mamar, retornavam ao berçário. Ainda não havia sido inventado e implantado o alojamento conjunto.

No final da tarde, já havia se passado mais de meia hora do horário em que ela deveria ter vindo para nova mamada. Dr. Carlos já estava meio desconfiado de que algo não estava bem. De vez em quando olhava para o relógio, mas nada disse para Ana. De repente a porta do quarto se abriu e entrou uma enfermeira, que tentando disfarçar uma forte ansiedade disse:

- “Dr. Carlos, o Sr. pode, por favor, dar uma chegadinha até o berçário – rápido?“ Seu tom de voz e a ênfase no “rápido” não deixavam dúvidas.

Carlos gelou. Caminhou rápido até o berçário, que ficava vizinho ao seu quarto. Ao entrar viu sua pequena bebê totalmente roxa nos braços de outra enfermeira, que praticamente atirou-a para ele e disse :

- “Doutor, pelo amor de Deus, salve esta criança !“

Ela havia engasgado ou então sofrido uma apnéia, uma parada respiratória pela prematuridade. A reação do Dr. Carlos foi completamente profissional, tomou todas as medidas necessárias para restabelecer a respiração e os demais parâmetros vitais.  Depois de estabilizado o quadro, sentou-se e aí sim, trêmulo, ficou com as pernas bambas durante algum tempo…

E foi assim, bem antes do que pretendia, que ele estreou como pediatra da própria filha. Ele havia sido acertadamente chamado pelas enfermeiras para atender aquela emergência, porque era o pediatra mais próximo.

Depois desse enorme susto inicial sua filhinha nunca mais deu trabalho ao casal de médicos.
* * * * *

Quatro anos e muitos plantões depois, Ana e Carlos resolveram ter mais um filho. Também desta vez a gravidez começou complicada. Ana teve vários sangramentos e ameaças de abortamento, pois sua placenta tinha implantação muito baixa, o que levava a grande risco para mãe e filho. Sua médica prescreveu uma diminuição das atividades.

No último trimestre a situação se complicou e Ana teve de ficar em repouso absoluto. Carlos continuava fazendo seus plantões, agora dobrados, para manter o orçamento da casa. E foi justamente numa das madrugadas em que Carlos estava trabalhando, que Ana sofreu um súbito e abundante sangramento. Diagnóstico: placenta prévia sangrante. Com trinta e cinco semanas de gestação, ela foi levada às pressas para a maternidade. Lá foi submetida a uma cesariana de emergência, na tentativa de salvar mãe e bebê.

Dr. Carlos foi avisado, mas foi difícil conseguir um substituto para poder sair do plantão. Assim que pôde, correu para a maternidade onde Ana estava. Lá chegando, certificou-se de que ela estava bem, mas foi informado de que o bebê, prematuro, estava na unidade de risco neonatal.

Carlos dirigiu-se ao berçário, identificou-se e foi autorizado a entrar. Era um berçário grande, com várias salas. Ele aproximou-se de uma sonolenta enfermeira e perguntou por seu filho. Ela indicou-lhe uma das salas, onde havia várias incubadoras, e continuou seu trabalho. Dr. Carlos dirigiu-se à sala apontada e aproximou-se da incubadora.
O pequenino bebê não estava nada bem, respirava com muita dificuldade, bem roxinho… Dr. Carlos ficou ali parado, em silêncio, olhando e rezando.

Após alguns longos minutos naquela situação, a enfermeira, que até então estava ocupada com seus afazeres, aproximou-se e disse:

- “Não, doutor, este não é seu filho, o seu é este aqui na incubadora ao lado!“

E na incubadora ao lado estava um menininho, prematuro sim, mas saudável, rosado, tranqüilo, respirando normalmente! – “Obrigado, Senhor , por ouvir minhas preces!“ – alegrou-se Carlos.

Novamente mãe, pai e filho recuperaram-se muito bem.

* * * * *
Mais três anos e o casal decidiu ter mais um filho. Ana já beirava os quarenta anos, mas gozava de boa saúde. Resolveram, por razões éticas e religiosas, não fazer nenhum exame para pesquisar a saúde do bebê, que pudesse trazer risco para a gravidez.

Desta vez a gestação foi muito tranqüila, sem os problemas que ocorreram nas anteriores. A diferença começou a aparecer no dia da cesariana, que foi obrigatória, devido às duas cirurgias prévias da Dra. Ana.

Dr. Carlos estava presente na sala de parto, mais uma vez desempenhando apenas o papel de pai. Anestesia feita, todos prontos, a cirurgia ia começar. Foi nesse exato momento que Carlos ouviu claramente uma voz dentro de sua mente, que disse:

- “prepare-se, pois a criança é mal-formada…”

-” Meu filho vai nascer mal-formado? Como? É certo que não fizemos os exames invasivos, que podem trazer riscos para o bebê, mas… todos os outros exames foram normais!“ – pensou Carlos. E procurou acalmar-se, pensando que praticamente todos os pais se preocupam com isso, conscientemente ou não.

Dr. Carlos lembrou-se que, desde os tempos de namoro com Ana, não se sentia preparado para ser pai. Achava que esta era uma enorme responsabilidade, maior até que a de ser pediatra. E um dos maiores pavores de sua vida era justamente o de ter um filho excepcional.

-” prepare-se, pois a criança é mal-formada…”- a voz ecoava em sua mente…

A operação correu normalmente e poucos minutos depois nasceu o bebê.
Uma menina!  Nasceu em ótimas condições e chorou bastante. O pediatra levou-a ao berço aquecido, para os cuidados de praxe. Dr. Carlos acompanhou tudo ansioso, pois queria verificar se ela era perfeita. Começou olhando os pés – perfeitos e lindos ! -, passeou o olhar pelas pernas e foi subindo. Genitais, abdômen, mãos e braços, tudo sem problemas. Ele começou a respirar aliviado, mas ao olhar o rosto da bebê, imediatamente compreendeu o que a voz queria dizer. Ele reconheceu o problema que procurava, quando viu os olhinhos puxados e afastados, e o formato típico das orelhas e da cabeça.  Sim, ela era linda, mas…

- “ Ela tem síndrome de Down! ” -, disse Carlos baixinho.  Seu colega pediatra balançou a cabeça concordando.

- “E agora? O que vai ser de nossa filha? ” – perguntou assustado o Dr. Carlos.

* * * * *
E agora, Carlos e Ana não sabiam…

Como a imensa maioria dos médicos do Brasil, ou do mundo, eles haviam se formado sem ter tido uma aula sequer sobre síndrome de Down. A experiência deles sobre o assunto resumia-se a uma mistura de poucos conhecimentos, muita desinformação e um enorme preconceito.

Começou ali um longo aprendizado, em que a principal professora foi a própria filha. Rapidamente ela começou a desmistificar os conceitos errados que eles tinham, mostrando uma outra realidade. Eles aprenderam a trabalhar com o potencial e as possibilidades, não com as incapacidades. A enfrentar os problemas, valorizando as pequenas vitórias. E acima de tudo, a respeitar a diversidade que existe entre as pessoas, uma das riquezas da espécie humana.

Nesse processo, toda a família cresceu e amadureceu. Dr. Carlos e Dra. Ana passaram a participar dos movimentos científicos e associativos sobre a síndrome de Down, ajudando a tornar mais conhecidas essas incríveis pessoas.
* * * * *

Três gestações, três filhos, três sustos. Como diz o ditado, em casa de ferreiro… o espeto é de pau. Ou, em casa de pediatra e obstetra… prematuridade, placenta prévia e síndrome de Down!

Ruy do Amaral Pupo Filho
Pediatra, Sanitarista e Escritor

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