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Segunda-feira, 25/09/2017
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Gestantes

Esta seção vai ajudar as gestantes a entenderem melhor o milagre da gravidez

Plantão Médico – Pé-de-valsa

No entra-e-sai da sala dos médicos da Maternidade Bom Parto, um dos residentes entrou às gargalhadas. –“O que foi?”- perguntaram seus colegas.

–“Vocês nem imaginam o que aconteceu ontem lá na ala particular do sétimo andar…”- retorquiu ele ainda recuperando o fôlego. –“Acabei de vir de lá, e a enfermeira me contou. Vocês conhecem o doutor André, obstetra? Pois ouçam o que aconteceu com ele ontem, bem cedinho…”
* * * * *
“Cinco horas da manhã. O Dr. André, obstetra, saiu bem cedo de casa, pois estava de plantão em outro hospital. Mas antes tinha de visitar uma paciente, que tivera um parto normal na tarde anterior, na “Bom Parto”.

Lá chegando, foi diretamente para o quarto. Deu uma leve batidinha na porta e entrou, sem esperar resposta. O quarto estava escuro. Olhou para a cama da paciente e viu uma enorme bunda branca, movimentando-se sobre ela.  Assustado, olhou com atenção e reconheceu o marido da paciente. Que estava simplesmente transando com ela, doze horas após o parto.

A reação do obstetra foi instintiva. Deu um tapa no traseiro do homem e gritou: -“Saia daí, seu tarado, você vai estragar tudo que eu fiz!” Desenxabido, o homem saiu da cama, balbuciando um pedido de desculpas. E não se falou mais nisso… Mas a notícia ainda está correndo o hospital, rapidinho…”

Seguiu-se uma gargalhada geral, e alguém comentou: – “Esse é um caso para a Mércia, sem dúvida!” Um dos residentes, que era novato e pouco conhecia do hospital, perguntou quem era Mércia. –“É uma das psicólogas do serviço de psicologia do hospital.”- respondeu um residente mais experiente.

-“E acontecem muitos casos estranhos assim?”- perguntou o novato. –“Sem dúvida as psicólogas têm muitas histórias para contar…”
* * * * *

O Serviço de Psicologia funcionava no andar térreo da Maternidade Bom Parto. Suas profissionais cobriam várias áreas dentro do hospital. Davam suporte às gestantes ou parturientes que necessitassem, como, por exemplo, as adolescentes, ou outras situações especiais. Prestavam também suporte aos familiares de bebês internados na UTI-neonatal, bem como aos profissionais que lá trabalhavam.  Um trabalho fundamental para o bom atendimento dos pacientes.

Mas uma das áreas em que Mércia mais gostava de atuar era a do Planejamento Familiar. Ela já era veterana, com mais de vinte anos de experiência. Sua tarefa consistia em avaliar os casais que solicitavam meios definitivos de anticoncepção, como por exemplo, a laqueadura das trompas. Tudo era feito em equipe, com a participação de médicos, assistentes sociais e psicólogas.

Era um trabalho delicado. As entrevistas eram feitas sempre com o casal e, necessariamente, a intimidade sexual deles era devassada. Era preciso saber, por exemplo, qual método era usado pelo casal para evitar filhos. Por que aquele método não estava funcionando. Se fosse a camisinha, como ela era colocada, em que momento da relação, e assim por diante. Ao mesmo tempo em que Mércia tinha que estabelecer uma cumplicidade, uma intimidade que permitisse ao casal se abrir como ela, era necessário estabelecer um limite profissional, para que certos homens, machões, não tentassem se aproveitar daquela proximidade para insinuar “gracinhas” para ela. Era como andar na corda bamba.

Certa vez, ela entrevistava um casal, para o qual havia sido sugerida a vasectomia. O marido, entretanto, estava relutante. Aliás, como a maioria dos homens fica em relação a esta cirurgia. Mas este marido não se abria, nem instado pela mulher, repetidas vezes. -”Fala, homem!” – dizia ela -”Diga aí para a piscóloga do que você tem medo!” E ele nada. Até que a esposa se cansou e disse: -”Sabe, doutora, ele tem medo de ficar seis e meia!” Mércia não entendeu e perguntou o que significava aquela expressão. E um desenxabido marido explicou que seis e meia é o horário em que os ponteiros do relógio estão totalmente voltados para baixo. -”Broxados, doutora…” Mércia conteve o riso e explicou que esse temor era infundado. Uma consulta com o urologista poderia esclarecer todas as suas dúvidas…
* * * * *

E neste dia, a sala de espera do hospital estava cheia. Na porta do consultório, uma placa: Planejamento Familiar. A porta se abriu e surgiu Mércia, prontuário na mão, pronta para chamar os próximos pacientes: Jussara e seu marido, Genival. Uma gestante já de barriguinha se levantou e caminhou até o consultório, mas estava só. Genival não viera. Mércia reparou que ela tinha os olhos inchados, uma cara de quem havia chorado muito.

A psicóloga observou a ficha. Jussara tinha trinta anos, era doméstica, estava casada há dois anos com Genival, trinta e cinco anos, zelador. Estava com vinte e oito semanas de gestação. Ao perguntar para Jussara por que ela não queria mais ter filhos, além do que já carregava, ela se pôs a chorar. –“O meu casamento acabou, doutora! Depois que eu engravidei, o Genival me abandonou, não sai mais comigo. Antes a gente saia quase toda noite, agora ele sai só e volta tarde… Eu não quero mais passar por isso!” – prosseguiu ela nas suas reclamações.

E tanto ela reclamou do Genival, que Mércia, mesmo sem querer, começou a sentir raiva dele. Devia ser um sujeitinho ordinário, pensava ela, para fazer isso com a esposa. E logo deu a decisão: Jussara deveria voltar, mas acompanhada por Genival, para que ela pudesse ter uma conversa séria com ele.

* * * * * *

Quinze dias depois, Jussara voltou. Entrou no consultório, acompanhada de Genival. Ao vê-lo, Mércia ficou surpresa. Genival não era bonito e vestia-se como um autêntico malandro de antigamente. Calça branca justa, sapatos brancos, camisa escura, combinando com o cinto. E o andar gingado, gestos cheios de malícia. Mas apesar disso (ou por causa disso…) ele transpirava um certo ar irresistível de sedução. Quando começou a falar, então… era uma gentileza só, amável, sorridente. Mércia logo começou a se desfazer da raiva prévia que sentia. Desta vez, era ela quem sentia vontade de dizer uma “gracinha” para o paciente…

-“Veja bem, doutora” – disse com um franco sorriso o Genival. –“ O problema é o seguinte: eu amo a Jussara, ela é a mulher da minha vida. Mas eu também amo muito dançar. Eu costumo ir sempre ao salão de danças, aliás, foi lá que nós nos conhecemos. A Jussara sabe que eu danço com ela e com muitas mulheres, mas não tenho nada com ninguém. Só com ela e com a dança.” – completou o bailarino sedutor.

Mércia, sem perceber, já começou a se imaginar dançando agarradinha com Genival… mas saiu do devaneio ao notar que ambos olhavam para ela, em silêncio, esperando um comentário. –“Mas se ambos gostam de dançar, por que você não a leva para o salão?” – indagou.

-“Aí é que está, doutora” – disse ele. –“ Nós sempre fomos juntos, ela é a minha parceira predileta. Mas lá na cidade de onde eu venho, mulher buchuda não pode dançar ou ir a baile de jeito nenhum. Pode ofender ela e o bebê. Estou fazendo isso pelo bem dos dois.” E ele continuou: -“Sabe, no começo da gravidez eu tentei ficar em casa e até parei de ir dançar. Mas foi me dando uma tristeza, uma gastura, e eu não agüentei. Voltei pro salão…”

Mércia não sabia nem por que, mas estava encantada com aquele homem. E explicou-lhe, com o maior prazer, que não havia nenhum problema se Jussara fosse ao baile. Sua gravidez e seu bebê eram saudáveis, e neste caso a grávida pode fazer quase de tudo. Inclusive dançar e freqüentar festas…

Um raio iluminou a face de Jussara e Genival, como se tivessem acabado de ouvir uma revelação transcendental. Logo depois se despediram e saíram muito felizes.

* * * * * *

Alguns dias depois, Jussara voltou só ao consultório de Mércia, na Maternidade Bom Parto. –“Vim apenas para agradecer, doutora. Não quero mais ligar as trompas, a minha vida voltou a ser o que era. E graças à senhora, que salvou meu casamento!”

Mércia sentiu-se feliz e realizada por ter resolvido o problema. Como boa psicóloga, sabia a importância da dança e das fantasias na vida das pessoas. Por isso, até hoje, quando passa em frente a um salão de baile, permite-se pensar em Genival, o pé-de-valsa sedutor, e nas músicas que não dançou com ele…

Ruy do Amaral Pupo Filho
Pediatra, Sanitarista e Escritor

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